CORRIDA POR TESTES COVID EM FARMÁCIAS

Demanda por testes de farmácia para Covid-19 supera em dois meses todo o ano de 2020

Com uma oferta maior — e melhor — de testes de farmácia para Covid-19, a demanda por diagnóstico nesses estabelecimentos aumentou cerca de 250% de 2020 para 2021. Quando realizados adequadamente, eles ajudam a cobrir uma lacuna deixada pelo setor público, mas a testagem sem orientação pode deixar pessoas confusas e atrapalhar a vigilância epidemiológica, alertam especialistas.

Os baixos números de testagem são um problema no Brasil, porque a facilidade de acesso ao diagnóstico é essencial para o desafio de conter surtos.

A meta de testes PCR, que detectam infecção ativa, nunca foi atingida na rede pública. Se contar exames feitos até fevereiro, dois meses após o prazo estipulado pelo Ministério da Saúde, o governo federal fez 59,8% do total de testes previstos. Enquanto isso, nas farmácias, os exames bancados pelos próprios pacientes disparam: a quantidade realizada nas lojas em 2021 já supera a de todo 2020.

A falta de testes em massa contribuiu para o atual colapso sanitário do país, afirmam especialistas. O aumento de testagem na farmácia pode compensar parte desse problema.

De 1º de janeiro até 14 de março deste ano, foram feitos 2.045.469 testes nas farmácias do país, contra 2.032.089 de abril até dezembro de 2020, segundo a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma). Os números foram compilados em 3.516 farmácias.

Também chama a atenção um salto nos resultados positivos obtidos nas drogarias. Eles subiram de 15% no ano passado para 23% neste ano. O número é alto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a taxa de positividade esteja em 5% ou menos por 14 dias para relaxar medidas de distanciamento social.

— Com hospitais lotados, a população está mais temerosa e tem preferido ir à farmácia — avalia Sérgio Mena Barreto, presidente-executivo da Abrafarma, sobre o aumento da demanda.

Como esses testes não requerem pedido médico, farmacêuticos são orientados a explicar qual teste é o mais indicado para cada cliente.

No varejo farmacêutico, porém, o tipo mais confiável, o PCR, ainda é novidade. Só na virada do ano é que as lojas das grandes cidades passaram a oferecer de forma mais ampla a modalidade PC por amostra de saliva (não de secreção nasal, como no teste clássico).

A amostra é sequenciada em um laboratório parceiro da farmácia. Em estudos ainda não concluídos no Brasil, a precisão tem se mostrado semelhante, assim como a espera para os resultados, até 48 horas.

Rápidos e inadequados


Já os testes rápidos de anticorpos ficam prontos na hora, mas não detectam infecção ativa, e não são recomendados para uso clínico.

O terceiro modelo comercializado é o de antígeno, realizado em secreção nasal coletada por cotonete. É um menos sensível que o PCR, mas tem resultado mais rápido de poucas horas.

Segundo Ana Vidor, gerente municipal de vigilância epidemiológica de Florianópolis, testes em farmácias podem ser muito úteis, mas requerem atenção.

— Elas são uma oferta complementar importante, mas é preciso que cumpram uma função que não seja só comercializar exames, mas oferecer serviço de diagnóstico para o paciente — diz Vidor.

Às farmácias está vetado, por exemplo, vender os kits de exames para o cliente fazer o teste em casa. Um problema é que a Covid-19 é uma doença de notificação obrigatória, e a farmácia precisa informar resultado do teste ao sistema de saúde.


Em 2020, o Ministério da Saúde estimava que realizaria 24,6 milhões de testes PCR até o ano acabar. Essa quantidade, porém, não foi alcançada nem somando as semanas recentes.

Longe da meta

— Testar pouco é isolar pouco — resume a médica infectologista Raquel Stucchi, professora da Unicamp. — Isso explica em parte a explosão de casos no Brasil e precisamos otimizar isso. Quando isolamos poucos infeccados, mantemos a transmissão continuada na comunidade.

Para controlar a propagação, ela diz, também é muito importante a agilidade na entrega dos resultados.

— Sem o resultado, o assintomático não segue tão estritamente o isolamento — afirma Stucchi. — E do ponto de vista trabalhista, é complicado. Muitos setores pedem o exame positivo [para dar licença ao funcionário].

Segundo Ana Vidor, é mais fácil convencer um suspeito de Covid-19 a ficar em casa quando ele tem o diagnóstico. Com o colapso dos sistemas de saúde, o rastreio de casos tem sido difícil para prefeituras, e testes de farmácia podem estimular casos positivos a agirem corretamente.

— O recomendável é a pessoa se isolar em casa e avisar seus contatos para que também fiquem em casa — diz a epidemiologista. — O que não pode é a pessoa omitir que teve teste positivo e seguir vida normal.

(Colaborou Rafael Garcia) O Globo

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