Gestantes com coronavírus COVID-19 e transmissão ao bebê.

O surgimento de um novo coronavírus, chamado SARS-CoV-2, e a doença respiratória potencialmente fatal que ele pode produzir, o COVID-19, se espalhou rapidamente pelo mundo, criando um enorme problema de saúde pública.

Já afeta 203 países e territórios ao redor do mundo, com taxa de mortalidade próxima de 20%. Até o momento (01/04/2020 – 11:40AM BRT) já haviam sido registrados mais de 885 mil casos e mais de 44 mil mortes ao redor do Globo.

Epidemias anteriores de muitas infecções virais emergentes normalmente resultaram em maus resultados obstétricos, incluindo morbimortalidade materna, transmissão materno-fetal do vírus e infecções perinatais e morte.

Tendo em vista essa devastação em massa da população mundial, num ritmo tão acelerado, é sempre bom termos um ponto de luz, alguma notícia boa para ser divulgada.

Estou falando dos bebês nascidos de mães com COVID-19.

Pode parecer algo ilusório, uma falsa esperança…não sei.

Para mim foi uma notícia muito boa (e você pode tirar as suas conclusões após ler esse post).

O artigo publicado no Archives of Pathology & Laboratory Medicine analisou os efeitos de duas infecções anteriores por coronavírus – síndrome respiratória aguda grave (SARS) causada por SARS-CoV e síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS) causada por MERS-CoV – nos resultados da gravidez.

Além do que, além do mais, foram analisadas 38 mulheres grávidas com COVID-19 e seus recém-nascidos na China para avaliar os efeitos do SARS-CoV-2 em mães e bebês, incluindo dados clínicos, laboratoriais e virológicos e a transmissibilidade do vírus de mãe para feto.

  • Diferentemente das infecções por coronavírus em mulheres grávidas causadas por SARS e MERS, nessas 38 mulheres grávidas, o COVID-19 não levou a mortes maternas.
  • Importante, e semelhante às gestações com SARS e MERS, não houve casos confirmados de transmissão intrauterina de SARS-CoV-2 de mães com COVID-19 para seus fetos.
  • Todas as amostras neonatais testadas, incluindo em alguns casos placentas, foram negativas por rt-PCR para SARS-CoV-2.

Neste ponto da pandemia global da infecção por COVID-19, não há evidências de que o SARS-CoV-2 sofra transmissão intrauterina ou transplacentária de gestantes infectadas para seus fetos.

Uma das revistas científicas mais conhecidas no mundo, a Lancet, também publicou na sua edição do dia 27 de Março de 2020 os resultados de uma revisão retrospectiva de registros médicos que corroborou essas informações:

  • As características clínicas da pneumonia por COVID-19 em mulheres grávidas foram semelhantes às relatadas para pacientes adultos não grávidas que desenvolveram pneumonia por COVID-19.
  • Os resultados desse pequeno grupo de casos sugerem que atualmente não há evidências de infecção intra-uterina causada por transmissão vertical em mulheres que desenvolvem pneumonia por COVID-19 no final da gravidez.

Outro estudo, no American Journal of Roentgenologia (nem eu conhecia esse nome – é o ramo da ciência que estuda a aplicação dos raios X, notadamente para o efeito de diagnósticos médicos), publicado em 18 de Março de 2020 teve como objetivo foi descrever as manifestações clínicas e as características tomográficas da pneumonia por doença de coronavírus (COVID-19) em 15 gestantes e fornecer algumas evidências iniciais que podem ser usadas para orientar o tratamento de gestantes com pneumonia por COVID-19.

Os pesquisadores revisaram os dados clínicos e os exames tomográficos de 15 mulheres grávidas consecutivas com pneumonia por COVID-19 entre 20 de janeiro de 2020 e 10 de fevereiro de 2020.

 

Os resultados encontrados foram…

Onze pacientes tiveram um parto bem-sucedido (10 partos de cesariana e um parto vaginal) durante o período do estudo, e quatro pacientes ainda estavam grávidas (três no segundo trimestre e um no terceiro trimestre) no final do período do estudo. Os resultados encontrados foram:

  • Não foram relatados casos de asfixia neonatal, morte neonatal, natimorto ou aborto. O achado precoce mais comum na TC do tórax foi a opacidade em vidro fosco (GGO).
  • Com a progressão da doença, foram observados padrões de pavimentação malucos e consolidações na TC.
  • As anormalidades mostraram alterações de absorção no final do período do estudo para todos os pacientes.
  • Os sintomas mais comuns da pneumonia por COVID-19 em mulheres grávidas foram febre (13/15 pacientes) e tosse (9/15 pacientes).
  • O achado laboratorial anormal mais comum foi linfocitopenia (12/15 pacientes). As imagens tomográficas obtidas antes e após o parto não mostraram sinais de agravamento da pneumonia após o parto.
  • Os quatro pacientes que ainda estavam grávidas no final do período do estudo não foram tratados com medicamentos antivirais, mas obtiveram boa recuperação.

Através desses dados os pesquisadores concluíram que a gravidez e o parto não agravaram o curso dos sintomas ou as características tomográficas da pneumonia por COVID-19.

Todos os casos de pneumonia por COVID-19 nas gestantes deste estudo foram do tipo leve. Todas as mulheres deste estudo – algumas das quais não receberam medicamentos antivirais – obtiveram boa recuperação da pneumonia por COVID-19.

Entretanto, um alerta:

Embora não tenha sido encontrada nenhuma evidência da presença de partículas virais de SARS-CoV-2 nos produtos da concepção ou em neonatos, de acordo com os achados de um estudo anterior sobre SARS-CoV-1 realizado por Wong e colegas.

Foram relatados dois casos neonatais de infecção por COVID-19 foram confirmados até o momento, com um caso confirmado aos 17 dias após o nascimento e com histórico de contato próximo com dois casos confirmados (a mãe e a maternidade do bebê) e o outro caso confirmado com 36 horas após o nascimento e para quem a possibilidade de histórico de contato próximo não pode ser excluída.

No entanto, nenhuma evidência confiável ainda está disponível para apoiar a possibilidade de transmissão vertical da infecção por COVID-19 da mãe para o bebê.

Os profissionais de saúde devem considerar esses bebês pacientes de alto risco, pois embora nasçam livres do mesmo, a possibilidade de infecção no ambiente hospitalar e até mesmo doméstico é enorme.

Finalmente uma boa notícia em relação à pandemia do Coronavírus 2019.

Literatura consultada:

  • Schwartz DA. An Analysis of 38 Pregnant Women with COVID-19, Their Newborn Infants, and Maternal-Fetal Transmission of SARS-CoV-2: Maternal Coronavirus Infections and Pregnancy Outcomes. Arch Pathol Lab Med. 2020 Mar 17. doi: 10.5858/arpa.2020-0901-SA. Online ahead of print.
  • Liu D, Li L, Wu X, Zheng D, Wang J, Yang L, Zheng C. Pregnancy and Perinatal Outcomes of Women With Coronavirus Disease (COVID-19) Pneumonia: A Preliminary Analysis. AJR Am J Roentgenol. 2020 Mar 18:1-6. doi: 10.2214/AJR.20.23072. Online ahead of print.
  • Chen H, Guo J, Wang C, Luo F, Yu X, Zhang W, Li J, Zhao D, Xu D, Gong Q, Liao J, Yang H, Hou W, Zhang Y. Clinical characteristics and intrauterine vertical transmission potential of COVID-19 infection in nine pregnant women: a retrospective review of medical records. Lancet. 2020 Mar 7;395(10226):809-815. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30360-3. Epub 2020 Feb 12.
  • Qiao J. What are the risks of COVID-19 infection in pregnant women? Lancet. 2020 Mar 7;395(10226):760-762. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30365-2. Epub 2020 Feb 12.
  • Chen D et. al. Expert consensus for managing pregnant women and neonates born to mothers with suspected or confirmed novel coronavirus (COVID-19) infection. Int J Gynaecol Obstet. 2020 Mar 20. doi: 10.1002/ijgo.13146. Online ahead of print.

Deixe uma resposta

Contato

Descreva-nos a sua necessidade preenchendo o formulário abaixo. Responderemos seu chamado em até 24 horas.





Envio de Chamados de Suporte



FAQs: Central de Ajuda.